Crise da Oi   03/11/2017 | 14h23     Atualizado em 03/11/2017 | 14h55

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Telecomunicações: crise da OI preocupa, mas representa ’oportunidade aos provedores de Internet’

Presidente da Internet Sul, que defende não interferência do governo, comenta impactos da crise na maior empresa de telecomunicações do Brasil, em processo de recuperação judicial: ’Vai multiplicar mercado e aumentar concorrência’

Os reflexos para consumidores e provedores de internet da crise enfrentada pela Oi, maior telecom do Brasil
Os reflexos para consumidores e provedores de internet da crise enfrentada pela Oi, maior telecom do Brasil

Até que ponto a crise na OI Brasil Telecom impactará no mercado de telecomunicações (telefonia e internet), afetando a vida das pessoas e a atuação dos provedores locais de Internet é uma questão que aguarda respostas e divide opiniões. A maior empresa de telecomunicações do país passa por processo de recuperação judicial (interferência da justiça numa empresa para elaboração de plano de recuperação, com renegociação das dívidas e oportunidade de pagá-las sem juros excessivos ou venda dos ativos, evitando a falência e funcionando para pagar o que deve, teoricamente sem dar lucro aos investidores) e os investidores e donos de provedores ficam atentos, à espera das novas oportunidades que surgirão. Para o presidente da Internet Sul (entidade com 20 anos de atuação sediada em Porto Alegre e que congrega 60% dos provedores do Rio Grande do Sul e 10% dos de Santa Catarina), Luciano Franz, trata-se de uma oportunidade única. "Isso tudo gera uma oportunidade nunca antes vista no setor. Até publiquei recentemente um artigo nesse sentido. A Oi gera 16 mil empregos e a previsão é de que (com a falência da companhia) sejam gerados mais de 100 mil novos empregos. Porque sem a OI haveria maior pulverização no segmento, com o surgimento de pelo menos dois novos provedores por cidade. Calculando cinco mil municípios e duas empresas com 20 funcionários cada, significaria 200 mil empregos. Então multiplicaria por cinco o tamanho do mercado nacional de telecomunicações", opina o presidente da Internet Sul.

 

Luciano, que foi reeleito e fica no cargo da entidade até 2019, acredita que, num primeiro momento, haverá "interferência negativa". "Porque muitos provedores dependem da OI para o link de backbone (rede principal e espécie de "espinha dorsal" da internet pela qual passam os dados dos clientes e das provedoras) e o governo vai ter que interferir para que continue funcionando, seja através da Telebrás ou outra medida. Mas isso num curto período, porque em um ou dois anos deve estar tudo resolvido", salientou. Ele destaca que no médio prazo a situação poderá ser positiva para provedores e clientes. "Vai aumentar a concorrência. Os clientes terão mais opções de internet, porque hoje em muitas cidades tem só a OI, que pratica o preço que quer e oferece a velocidade que entende. Isso é cerceamento do mercado e falta de liberdade. Sem a OI caminhamos para um mercado mais aberto e essa sempre foi ideia da Internet Sul: queremos que o cliente tenha cinco ou seis opções de cabo passando em cima da casa dele. Quanto mais pulverizado o mercado melhor, quanto mais gente disputando melhor. Mas hoje não é o que acontece", avalia, salientando que a Internet Sul "defende o livre-mercado e a não interferência do governo no setor".

Chineses negociam compra da OI Brasil Telecom: ’No varejo os provedores fazem muito melhor’

Para o presidente da Internet Sul, Luciano Franz, comando da Oi é estratégico para os chineses
Para o presidente da Internet Sul, Luciano Franz, comando da Oi é estratégico para os chineses

Segundo o presidente da Internet Sul, Luciano Franz, o principal problema da OI é a dívida que passa dos R$ 64 bilhões. "A Oi está sob administração de interventores, que tentam recuperar a empresa. Ela já negociou as dívidas com os pequenos e agora vem com os maiores credores. Problema é que o balanço operacional é muito negativo: se não tiver salvaguarda externa, ela quebra e não tem o que fazer. Só que ninguém vai querer comprar a OI do jeito que está: ela fatura muito pouco em relação ao que vale. É uma empresa insolúvel, que não serve enquanto negócio", assinalou. Apesar disso, ele destaca que a empresa brasileira deverá ser adquirida pelos chineses. "A China Telecom está negociando para comprar a OI. Talvez compre por uma questão estratégica e política e não por negócio. Comprará para salvar a companhia e tomar conta do mercado depois. Mas cabe ao governo decidir se vai integrar esse patrimônio, se vai pulverizar ele, ou deixar desaparecer. Acho que vão vender para os chineses para se livrar do ’pepino’", opinou, prevendo que o negócio seja concretizado até março de 2018. Ele diz que a compra da Oi pelos chineses representaria "mais um concorrente com dinheiro para disputar o mercado". "Para os provedores não é a melhor coisa, mas mesmo assim vai tornar o mercado aberto. Não sei o que essa empresa chinesa vai fazer, porque não será fácil sustentar a OI com essa rede velha, de 30 anos atrás, ainda da época da Telebrás e de antes da abertura das telecomunicações. Porque a rede foi reformulada apenas nas cidades maiores: na maioria dos municípios, principalmente nos pequenos, ainda é uma rede de planta DSL e não de fibra. Então (a empresa que comprar a OI) vai ter que fazer tudo novo, porque isso interfere na qualidade", apontou.

 

Luciano diz que até mesmo a mão-de-obra da OI está complicada. "Ela não investiu nos últimos 20 anos em descentralizar a rede como a GVT ou a Telefônica. A OI está muito atrasada e vai levar anos para profissionalizar a companhia", observou. Ele  salientou a melhor alternativa para os provedores locais de Internet. "Para nós seria melhor que fosse vendida a parte do atacado e essa planta fixa do varejo fosse entregue para os provedores fazerem. Isso seria o ideal para nós e até para as grandes companhias, porque para elas não fazer varejo é o melhor negócio que tem, porque os provedores fazem muito melhor, mais barato e mais rápido", opinou, salientando que a internet está absorvendo as demais mídias. Para o presidente da Internet Sul, o problema da Oi Brasil Telecom é do mesmo tipo do que afetou a Petrobrás. "Pode ter certeza que os investidores não perderam dinheiro. Deixaram explodir por causas políticas que não cabe a nós discutir, vamos deixar para o Sergio Moro resolver. Mas com certeza muita gente ficou rica com essa quebra da Oi. A situação da companhia está muito crítica, hoje eles não têm nem cabo para arrumar um telefone. E, como muitas pessoas só têm a Oi, acabam ficando reféns desta situação", avalia Luciano Franz. 

’É preocupante, milhões dependem desse serviço’: CEO da Bitcom defende solução rápida para crise da OI

Para CEO da Bitcom, Névio Stefainski, momento é de preocupação: ’seria o caos no país’
Para CEO da Bitcom, Névio Stefainski, momento é de preocupação: ’seria o caos no país’

Para o CEO da Bitcom Internet, Névio Stefainski, a crise da OI é grave e preocupante. "Milhões de pessoas dependem desse serviço e, se ninguém comprar a OI, haverá mais problemas do que já temos. Porque, do jeito que está, a empresa não consegue investir, expandir e nem atender os clientes. Se alguém comprar vai resolver", opinou, salientando que até o momento a Bitcom não teve nenhum problema com relação aos links da OI. Ele concorda que para os provedores de internet a crise da OI é até positiva, pois abre mais o mercado. "Mas se pensarmos em termos de país e sociedade é importante que a empresa não vá à falência, porque seria o caos no país, teríamos um ’apagão’ nas telecomunicações. Então torço para que se resolva logo essa situação", ponderou.

 

O executivo explica que os provedores de internet como a Bitcom compram links das grandes operadores como a OI e a Telefônica, que adquriu a GVT. "Existem outras menores, mas acredito que metade dos provedores são clientes da OI. No caso da Bitcom, temos cinco operadoras que nos atendem. Se a OI fechar as portas, aumento a participação dessas outras e não haveria problemas. Mas tem que ver se elas vão dar conta de suportar toda a demanda dos demais provedores", apontou.  Segundo levantamento do governo federal, uma possível falência da companhia afetaria todo o sistema de telecomunicações do país, deixando mais de dois mil municípios sem telecomunicações. São cidades onde a OI não tem concorrentes atuando ou as adversárias alugam a infraestrutura da empresa para fornecer serviços de internet e telefonia a seus clientes. De acordo com o levantamento, esse possível apagão nas telecomunicações afetaria 46 milhões de linhas de telefone celular, 14 milhões de fixos e também 5 milhões de acessos à internet via cabo em todo o país. Isso porque, de alguma maneira, todas as operadoras brasileiras dependem da Oi em algum grau, seja alugando pequenas ou grandes partes da sua infraestrutura.